Beijo na Boca
História de Márcia
Não tivemos aula de matemática e no tempo vago fiquei na biblioteca lendo sobre as estranhas formas aquáticas que vivem em fossas abissais nos oceanos, a mais de seis mil metros de profundidade.
Vivia fascinada com aqueles estranhos peixes que nascem e morrem em completa escuridão, comendo uns aos outros. Nem reparei quando Mariana sentou ao meu lado:
- Márcia.
- Hein? - me espantei.
- Quer aprender a beijar na boca?
Estava tão mergulhada na pesquisa que custei a entender.
- Sei que você nunca beijou um menino - continuou. - Nem eu. Estamos ficando velhas. Temos treze anos. A coisa acontecerá a qualquer momento. Precisamos nos preparar.
- Depois a gente conversa sobre isso.
- Parece maluca. Fica aí perdendo tempo com esses monstros esquisitos.
- Me deixa.
- Qualquer hora dessas um menino vai querer te beijar e você vai fazer o quê? Falar de guelras e escamas?
- Xiii - fez a bibliotecária.
- Depois - implorei,
- Não. Tem de ser agora... Tive uma idéia ótima. Venha.
A Mariana é totalmente diferente de mim, por isso é minha melhor amiga. Se eu não fosse, faria barulho até sermos expulsas.
Arrastou-me de volta à sala. Vazia. Todos lanchando no pátio.
- Vamos sentar aqui no fundo - ela disse. - Vou te mostrar uma coisa. Se alguém entrar de repente, jogamos tudo pela janela.
Minha nossa, pensei, a Mariana vai me oferecer maconha ou alguma coisa desse tipo.
Tirou um pacote comprido e chato do fundo da bolsa, embrulhado em papel laminado, olhando pra porta da sala, assustada.
- Não me mete nisso não - eu disse. - Sou careta.
- Você tem medo de tudo, que porcaria. Vamos aprender a beijar.
Desembrulhou uma grande barra de chocolate. Cheguei a rir de alívio. Partiu a barra em dois pedaços e me deu um:
- Márica, preste atenção. Estamos cansadas de saber como se beija, já vimos milhares de vezes na tevê e no cinema, mas é só na teoria, entende? Precisamos de prática.
- Certo. Saímos, escolhemos um menino e dizemos, olha, preciso treinar beijo na boca. Me dá um beijo que eu te dou um pedaço de chocolate.
- Não, sua burra. Vamos treinar no chocolate.
Ela falava sério:
- Beijar é quem nem aplicar injeção. É precisp trienar. Minha tia é enfermeira e treinava dando injeções em chuchus.
- Vamos beijar chuchus?
- Não, sua idiota. Vamos beijar chocolates.
- Vou voltar pra biblioteca.
- Fique quieta. Olha. Pensei em tudo.
- Mas por que logo chocolate?
- É gostoso, macio, derrete na boca e podemos fazer em qualquer lugar. Imagine se a gente ficasse no cinema chupando chuchu.
Confesso que gostei.
O importante era a barra ser bastante grossa, com pelo menos um dedo de espessura. Colocava ela de lado na boca, um lábio por cima e outro por baixo, fechava os olhos, imaginava um menina e ia passando a língua pra lá e pra cá no chocolate. Ele derretia e a língua ia entrando, cada vez mais fundo.
Mariana tinha razão. Dava pra treinar em qualquer lugar, na sala, durante a aula, no cinema, no ônibus, vendo tevê.
Com o tempo fui inventando.
Beijava chocolate religiosamente antes de dormir. E em todos os recreios. Minha bolsa vivia cheia de barras e comecei a levar uma vida sexual muito interessante. O mais gostoso era beijar chocolate embaixo do chuveiro.
Experimentei chocolates brancos, pretos, caramelados, amargos, doces demais. Na Páscoa cheguei a ficar com olheiras. Por fim acabei me apaixonando por um tipo crocante, com pedacinhos de castanhas-do-pará. Quando minha língua tocava num daqueles carocinhos...
Isso durou muito tempo.
A idéia de Mariana era ótima, só houve um problema. Engordei dez quilos, minha cara se encheu de espinhas, fiquei horrorosa e os meninos de verdade nem olhavam para mim.
Tive de abandonar o chocolate. Sofri muito. Pensei em me matar. Uma relação assim, quando acaba, deixa a gente muito deprimida.
Mas aos poucos me recuperei, fiz regime, ginástica, cuidei da pele. Fiquei mais bonita do que antes e me senti uma mulher muito experiente.
Mariana saiu do colégio. Foi morar na Europa com os pais e nunca me contou se afinal os treinos com o chocolate haviam servido pra alguma coisa. Sei é que eu ainda não beijara ninguém.
Fiz quartoze anos. Voltei a me interessar pelo reino abissal e a me trancar na biblioteca nos intervalos entre aulas e nos tempos vagos.
Nessa época eu ia e voltada do colégio num carro que transportava alunos do mesmo bairro. Ia apertada lá dentro. Como era a primeira a entrar, sempre ficava num canto, no banco de trás. Depois de mim, duas esquinas, pegavam o Wilsinho.
Wilsinho era bagunceiro, repetente, tinha dezesseis anos e sentava sempre nas últimas carteiras. Não era feio nem bonito. Um tipo comum. Mas me dava medo. Fama de atrevido, sem-vergonha. E era um bocado forte.
Cismou comigo.
Começava cedo. Assim que entrava no carro, sentava ao meu lado e já ia me apertando e olhando com aquele ar cínico. Eu virava o rosto, puxava a saia pra baixo e o ignorava. Mas ela ficava lá, com a perna grudada na minha, o tempo todo. Na volta era a mesma coisa, só que pior, porque sempre estava suado de jogar bola.
Eu gostava do Alexandre.
Um gato. Praticava surfe, louro, sentava nas primeiras carteiras, como eu. Queria que ele me beijasse, mas a coisa nunca acontecia. Ficamos duas ou três vezes sozinhos. Nada. Junto dos outros a gente se divertia, ria, mas a sós dava um branco.
E o idiota do Wilsinho se esfregando. Uma praga. Estive várias vezes pra dar um tapa nele, mas detesto escândalos.
Não, vou ser sincera. Ele me perturbava de um jeito esquisito. Quando não aparecia, sentia falta da perna dele roçando na minha. Ficava o tempo todo olhando pela janela, de cara feia e com a mochila em cima das pernas, mas gostava dele ali, se encostando.